Womb Twin - Portugal

Gémeos singulares são pessoas que partilharam parte da sua vida intra-uterina (na maioria das vezes apenas umas semanas) com um ou mais irmãos ou irmãs gémeos idênticos ou fraternos que não chegaram a nascer. O segredo mais bem guardado até hoje é que o pequeno embrião já tem consciência, já guarda memória.

HAVERÁ PESSOAS GÉMEAS NASCIDAS SINGULARES QUE SOFREM TODA A SUA VIDA, COMO CONSEQUÊNCIA DESSA PERDA DO SEU COMPANHEIRO INICIAL?

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terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Sabedoria de Fernando Pessoa

Em jeito de resposta ao post anterior aqui fica a sabedoria do mestre Pessoa:


Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.


Fernando Pessoa

"Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades conhecidas como
heterónimos, objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro
irradiador da heteronímia, auto-denominou-se um "drama em gente"." sic

sábado, 30 de julho de 2011

Ainda Florbela Espanca

Diz José Regis, num estudo de 1952: “Embora fazendo sonetos de amor até ao fim, e não obstante a feminilidade que já vimos dar tom ao seu narcisismo, lembremo-nos, continuemos a lembrar-nos que Florbela gosta demasiado de si mesma, comprazendo-se em cantar “os leves arabescos” do seu corpo, a sua “pele de âmbar” os seu “olhos garços”, sobretudo as suas mãos que tanto veste de imagens. Pormenor impressionante: O que em si própria mais parece agradar-lhe – as mãos e os olhos – é o que também mais canta no amante amado. Dir-se-ia que ainda nele se espelha e se procura. E sem dúvida poderemos pensar que, em vários de seus sonetos considerados de amor, ela é que é o verdadeiro motivo; e o pretenso amado um pretexto."

AMAR
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém
!
(...)


E José Régis acrescenta ainda: "(...) Nem o Deus que viesse ama-la, sendo um Deus, lograria satisfazer a sua ansiedade(...)"

Florbela viveu, atormentada pela culpa, à procura de si própria...

Minha Culpa
Sei la’! Sei la’! Eu sei la’ bem
Quem sou? Um fogo-fatuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenario! Um vaivem

Como a sorte: hoje aqui, depois alem!
Sei la’ quem sou? Sei la’! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei la’ quem!…

Sou um verme que um dia quis ser astro…
Uma estatua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor…

Sei la’ quem sou?! Sei la’! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…



...e ao mesmo tempo à procura do Outro que, em vão, ansiava por (voltar a) sentir...

FRÉMITO DO MEU CORPO A PROCURAR-TE

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

Florbela Espanca

"A poesia de Florbela Espanca, Vila Viçosa, 1894-1930, caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. "

QUEM?

Não sei quem és. Já não te vejo bem...
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?...
Não sei se tu, amor, assim me vês!...
Nossos olhos não são nossos, talvez...
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!...

És tudo e não és nada... És a desgraça...
És quem nem sequer vejo; és um que passa...
És sorriso de Deus que não mereço...

És aquele que vive e que morreu...
És aquele que é quase um outro eu...
És aquele que nem sequer conheço...

in "A Mensageira das Violetas"
(ver também inefável memória)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Não me deixes...



Finalmente consigo ver
que estás mesmo aqui ao meu lado

Eu não me pertenço
porque eu fui re-criado

Por favor não desistas de mim
eu preciso desesperadamente de Ti

Eu não sou (m)eu próprio
eu fui re-feito

Por favor não me deixes
eu preciso desesperadamente de Ti

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

"Eu é um outro"

Arthur Rimbaud, poeta francês do final do séc. XIX, chamado por Victor Hugo "o pequeno Shakespeare", escreveu a maior parte da sua obra entre os 15 e os 21 anos. Numa das sua cartas a Paul Demeny ele afirma: "Je est un autre", a propósito da definição de poeta. Também Fernando Pessoa, com todos os seus heterónimos nos descreve todos os outros que "ele era".

No seu poema "Mes petites amoureuses" (1871)(a tradução é minha, vale o que vale...) Rimbaud faz uma declaração de amor cheia de sadismo, ódio e mesmo repulsa para com aqueles seus amores que "tanto mal lhe fizeram"... e que nós poderíamos interpretar como os seus pequenos companheiros de início de vida que partiram contra sua vontade e o deixaram nesta agonia.









(ver aqui outro post sobre resentimento e raiva)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dia do Gémeo Singular

Hoje, dia 21 de Dezembro, é o dia escolhido para homenagear (aqui a comemoração da Wombtwin.com) todas as pessoas que, nascidas sós (isto é, aparentemente não-gémeas), nos secretos primórdios da sua vida intra-uterina foram geradas como gémeas, ou mesmo, que viveram com os seus irmãos gémeos durante uma boa parte da sua gestação. Elas são chamadas de gémeos singulares porque não tiveram tempo de vida depois do nascimento com os seus irmãos.
Para comemorar este dia escolhi este ano (aqui o post comemorativo de 2009) uma canção do Jorge Palma, que dedico aos meus pequeninos de início de viagem. E mais uma vez agradeço ao cantor e a sensibilidade para compor letras e músicas como esta, que contam toda a nossa história com tanto pormenor e delicadeza!






sexta-feira, 12 de novembro de 2010

terça-feira, 11 de maio de 2010

DJ Encore - On Your Own

Apesar de mais raras, podemos encontrar em manifestações artisticas de diversos tipos, nomeadamente na música, algumas referências ao sentir do gémeo perdido, daquele que se foi, do que desistiu do sonho de viver, daquele que decidiu partir para deixar espaço ao seu irmão sobrevivente.

Esta música e letra de DJ Encore (a primeira música da lista a tocar aqui no blog), tão emocional e melancólica, descreve uma comovente despedida.
Reparem na inevitabilidade do adeus apesar do vínculo amoroso... reparem no sublinhado...


A menininha que procuras já cá não está. Não lhe podes chegar, está fora da vista; desaparece lentamente na escura noite vazia onde costumávamos estar deitados; enquanto tu dormes eu sussurro-te: Adeus.
Porque nada permanece igual para sempre. Eu gostava de poder mudar por ti.

Vá, deixa-me
enquanto ainda podes, continua sem mim, tens que entender, é assim que eu sou. Por isso, boa noite, meu amor, agora ficas sozinho. Agora ficas sozinho.
A menininha que costumava dizer: eu nunca te deixarei, mudou de ideias, acordou do seu sonho sem fim. E no lugar escuro e vazio onde costumamos ir, quando hoje é ontem, saberemos que nada permanece igual para sempre. Eu gostava de poder mudar por ti.

Vá, deixa-me enquanto ainda podes, continua sem mim, tens que entender, é assim que eu sou. Por isso, boa noite, meu amor.
Espero que te sintas melhor, e talvez um dia possas entender, que nós estamos sós -juntos. Oh, meu amor, não fiques como eu…

Vá, deixa-me, continua sem mim enquanto ainda podes. Tens que entender é assim que eu sou, por isso, boa noite, meu amor, agora ficas sozinho. Agora estás sozinho.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Um buraco na alma

Vem dá-me a tua mão, quero contactar com os vivos, não sei bem se entend0 o meu papel aqui... Sento-me a conversar com Deus, mas Ele só se ri dos meus planos, a minha cabeça fala uma língua que eu não compreendo...
Só quero sentir o verdadeiro Amor, o lar onde vivi, porque eu tenho demasiada vida a fluir nas minhas veias e a ser desperdiçada...
Eu não quero morrer, mas também não estou muito interessado em viver, antes mesmo de me apaixonar, preparo-me para deixá-la...
Tenho um Medo-de-morte, e é por isso que continuo a correr, vejo-me a caminho antes mesmo de chegar ao destino...
Eu só quero sentir o verdadeiro Amor, o lar onde vivi, porque eu tenho demasiada vida, a fluir nas minhas veias e a ser desperdiçada...
É que eu preciso de sentir o Amor verdadeiro, sentir a vida eterna. Nunca me chega o que tenho...
Eu só quero sentir o verdadeiro Amor, sentir o lar onde vivi, porque eu tenho demasiado amor, a fluir nas minhas veias e a ser desperdiçado...
Tenho um buraco na minha alma, podes vê-lo no meu rosto, é realmente muito grande...
Vem segurar a minha mão, eu quero contactar com os vivos...



Ver até ao fim!

quarta-feira, 10 de março de 2010

Grito III - Inefável memória

É ... um Ser..., uma ... criatura ...? Não, um corpo? Não! Não é uma mulher nem uma menina... nada disso! Não é uma figura, nem uma silhueta...; É uma presença! Sim é isso, uma presença… Imagine-se uma presença! Não é uma pessoa, é uma presença, uma existência, uma … onda emitida por um conjunto de matéria que agrupada daquela maneira, e só daquela maneira, resulta daquele modo. Não vem de fora, não é um olhar, nem um modo de estar... Não sei o que é...
Imagine-se algo indescritível como o cheiro de um perfume… mais o cheiro só, nem sequer se pode falar de perfume. Um sentimento como o que advém de um cheiro forte. E esse cheiro por sua vez desprende-se de uma presença… que se vê, que se ouve, que se sente, mas que não tem nome nem designação, porque o tal sentimento apaga qualquer referência. Um sentido que tem a ver com a alma, não tem a ver com factos, portanto não tem a ver com a matéria, ... e no entanto é físico com certeza, se é um sentido, neste caso o olfacto.
Mas não é o ser um cheiro que interessa, é algo de indescritível como o é um odor que paira no ar, que se desprende daquela presença, que é tão forte que apaga os seus traços. Os traços físicos como os mentais, os racionais.
Só resta a irracionalidade, o descontrolo, perde-se a razão … e tudo o que era deixa de ser.


Salomé

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Wombtwin day 2009

Hoje celebra-se mais um dia anual do Gémeo Sobrevivente (explicação aqui) e este poema anónimo foi enviado através da Newsletter da nossa Associação mãe, a Wombtwin.com para o comemorar. Disfrutem!

MOIETY

Halfness is a divided soul.
I walk on a one-legged limp;
I see one-eyed with no depth of vision;
I cannot tell how near you are to me.

One side is emptiness and death;
An unslaked thirst; a mirage of completion:
A cracked box, empty and crumbling into dust-
What was there was something: nothing now.

The other side is yearning and pain;
Tears for two, and anguish for more than myself.
An empty chair at the feast of life.
My voice is stilled by the sheer silence of you.

How can I ever find you if I let you go?
Will we both be forever dying,
Hung in a hammock over the abyss,
Clinging to our half-life to be together?

Come to me now and we will say farewell:
Be with me for one last, brief moment!
Let us say how much we love;
Let us share just once, just once - now go!

The treasure chest stands between us.
My life, my voice, my strength, is there
Locked away for you for many years:
I want to grow, even without you -

I may.

And now I will.

FRACÇÃO

Metade é uma alma dividida. Ando coxo, numa perna; Vejo só com um olho sem visão de profundidade; Não sei o quanto estás perto de mim.
De um lado é o vazio e a morte; Uma sede acesa; uma miragem do todo: Uma caixa partida, vazia a desfazer-se em pó. O que lá havia era algo: já nada é agora.
O outro lado é saudade e dor; Lágrimas de dois, e angústia por mais que só eu. Uma cadeira vazia no banquete da vida. Minha voz calada pelo teu absoluto silêncio.
Como poderei encontrar-te se te deixar ir? Será que vamos ambos ficar ambos a morrer para sempre, Pendurados numa rede sobre o abismo, Apegados à nossa meia-vida para estarmos juntos?
Vem ter comigo agora e vamos dizer adeus: Fica comigo por mais um breve momento! Vamos dizer o quanto nos amamos; Vamos partilhar só mais uma vez, só uma - agora vai!
Temos um tesouro entre nós os dois. A minha vida, a minha voz, a minha força estão lá. Trancadas para ti há muitos anos: Eu quero crescer, mesmo sem ti --
Eu posso-o, E agora eu vou…

domingo, 24 de agosto de 2008

Mário de Sá Carneiro

Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje quando me sinto
É com saudades de mim.

...

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo.
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida,
Assim eu choro da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
uma gentil companheira
que na minha vida inteira
eu nunca vi, mas recordo.

A sua boca dourada
e o seu corpo esmaecido,
Em um hábito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
são do que nunca enlacei.
Ai como tenho saudades
dos sonhos que não sonhei!...)

...


Partida
...

Ao triunfo maior, avante pois!
O meu destino é outro - é alto e é raro.
Unicamente custa muito caro;
A tristeza de nunca sermos dois...