Womb Twin - Portugal

Gémeos singulares são pessoas que partilharam parte da sua vida intra-uterina (na maioria das vezes apenas umas semanas) com um ou mais irmãos ou irmãs gémeos idênticos ou fraternos que não chegaram a nascer. O segredo mais bem guardado até hoje é que o pequeno embrião já tem consciência, já guarda memória.

HAVERÁ PESSOAS GÉMEAS NASCIDAS SINGULARES QUE SOFREM TODA A SUA VIDA, COMO CONSEQUÊNCIA DESSA PERDA DO SEU COMPANHEIRO INICIAL?

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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Composição em vez de oposição

"(...)
Aquilo a que resistis, persiste. Isto porque, pela vossa continuada atenção nele de uma forma negativa, continuais a colocá-lo lá. Não podeis resistir a algo que não está lá. Quando resistis a algo, vós colocai-lo lá. Ao focardes a raiva ou energia de frustração nele estais, na verdade, a dar-lhe mais força.
(...)
Mudar não é resistência, mas alteração. Modificar não é resistir, mas antes continuar a Criação Pessoal. Resistência é o fim da criação. Mantém firmemente a anterior criação no lugar.
Em cada momento de dificuldade e desafio na vossa vida tendes uma escolha: oposição ou composição. Para repetir: podeis opor-vos ao que estais a experimentar ou compor o que haveis escolhido.
Compor o que haveis escolhido"
Neale Donald Walsch, Quando a vida parece contrária aqui


Eu quero libertar-me da dor da perda e viver a minha vida plenamente, como tenho o direito de viver, mas estou zangada, frustrada, resistindo a aceitar que eu sou também essa perda. Diz Donald Walsh que através dessa resistência, dessa rigidez, dessa tensão, eu coloco-me exatamente e persistentemente no mesmo lugar de sempre. O que diz este senhor é que fico presa no meu próprio enredo, repetindo o mesmo padrão vezes e vezes sem fim. Diz ele que não me safo...

E o que ele aponta como saída é a não-resistência, o abandono, o relaxamento, baseados na profunda confiança de que a vida é perfeita e que tudo é como deve ser.

O que ele aponta como saída é a possibilidade de, em vez de lutar para eliminar a tristeza e a confusão (p. ex.) que me caracterizam, eu as receber com tranquilidade, apenas compondo, isto é, alterando/modificando determinadas opções práticas, para então alcançar a vida plena que busco.

Composição em vez de oposição! não me soa nada mal...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Amor Maior

O gémeo nascido singular ama o Amor Maior, e o amor platónico é deslumbrante, por ser alimentado pela ilusão.

O gémeo sobrevivente busca durante toda a sua vida ardentemente aquilo que conheceu na origem, na relação com o seu companheiro inicial.

Essa relação pode ter tido contornos tão diferentes, como diferentes são todos os seres humanos. Nem todos os sobreviventes de gestações gemelares vivem fundamentalmente obcecados pela procura do Amor que os uniu. Os outros sentimentos como o abandono, a tristeza ou a raiva, ao serem recordados lá do fundo das suas consciências, podem vir a influenciar profundamente as suas vidas.

O amor primordial, delicado e sublime que os dois pequenos fetos experimentam é recordado, como um inefável sentimento de amor puro, uma relação harmoniosa e perfeita, provida de uma sublime beleza. Este sentimento de perfeição é muitas vezes reencenado como sendo, o que hoje é comum chamarmos, o amor platónico, ou o amor a Deus, afinal, uma variante do amor platónico. Ficino, o filósofo que traduziu para o latim a obra de Platão, dizia que “o amor platónico é o desejo da beleza, enquanto representação do divino".

No útero, o novo ser humano em desenvolvimento é, antes de mais, um ser espiritual, um ser que está em vias de encarnar, cuja ligação ao mundo invisível é mais forte que a ligação ao mundo terreno. Dois fetos juntos no útero são dois seres essencialmente espirituais, ligados entre si. Mas o pequeno corpo em desenvolvimento, que já sente e já guarda memória, é um instrumento da dimensão espiritual. A sexualidade, sendo uma forma de expressão do prazer corporal, é também uma manifestação do prazer resultante da união espiritual entre ambos os fetos.

Nas relações amorosas, o sobrevivente de gestações gemelares adulto, traumatizado pela falta do seu saudoso companheiro de viagem, pode procurar reencenar a experiência espiritual por que tanto anseia, tanto através da recusa determinante dos prazeres carnais (mantendo as suas relações amorosas ao nível espiritual) como através da vivência intensa da relação sexual por si só (podendo mesmo desenvolver uma obsessão ou dependência pelo prazer sexual).
(ver também o contacto corporal com o outro)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

É urgente reconhecermos os sobreviventes de gravidezes originalmente gemelares -para bem tanto da sociedade em geral como dos próprios indivíduos sobreviventes.

A consciência da condição de gémeo sobrevivente (que, quando adquirida, de repente se torna numa explicação clara para o que antes não fazia sentido) é inversamente proporcional à dor sofrida por aqueles que perderam com quem em tempos dividiram o lar-útero; aqueles que não deviam ter de sofrer entregues à solidão dos seus corações por não haver por parte da sociedade o devido reconhecimento.

Lutar sozinho contra esta condição inefável é especialmente difícil quando de início o problema é estar-se sozinho!
Temos que ser o salmão que nada rio acima num mundo não-gémeos, que afinal o são em número cada vez menor.
Em vez de olhar para o lado e ignorar temos hoje que ser diligentes, reconhecer e responder a esta epidemia iminente de gémeos sobreviventes: o número de gémeos e múltiplos está a aumentar, também como consequência das concepções medicamente assistidas.
Os gémeos sobreviventes estão por todo o lado à nossa volta. Dia a dia reinterpretam a sua vivência intra-uterina - o seu sonho do ventre -... alguns poucos sabem-no e estão a conseguir ultrapassá-lo, outros sabendo-o não conseguem evitá-lo, mas a maioria não faz a menor ideia.

É lidando com a situação ao nível pessoal e também social que, num curto espaço de tempo, poderemos curar-nos, colocando esta primeira parte da nossa história no seu devido lugar.

Livres para viver a vida sem estarmos presos a uma fidelidade ao passado, que nunca existiu no aqui e agora, e felizes por saber que honrámos a verdade conforme ela se nos apresenta, poderemos então dar largas às qualidades que são realmente nossas e nos ligam a este mundo. Deveria ser assim: deixar ir, largar o facto de ter começado como gémeo, por ter sido explorado, entendido, reconhecido e honrado, por estar agora no seu devido lugar.

Aquilo a que resistimos persiste, e continuar a ignorar este dilema não é mais uma opção. Não podemos minorar a importância do luto por estes "outros" perdidos e não podemos dar-nos ao luxo de continuar a ignorar a nossa verdade interior.

Tradução do texto de apresentação escrito por Monica Hudson em http://wombtwin-us.blogspot.com/

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A obra de Joanna Wilheim

No passado mês de Julho a Drª Joanna Wilheim, uma das pioneiras no estudo de gémeos sobreviventes (desde 1983) e Presidente da Associação Brasileira para o Estudo do Psiquismo Pré- e Peri-Natal, deu em Paris uma palestra com o título “Sindrome do Sobrevivente de Concepção Gemelar” no 1º Seminário internacional Transdisciplinar Clínica Pesquisa sobre o Bebé, do Instituto Langage.

Já em 2005 tinha apresentado as suas pesquisas e conclusões à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo onde, a partir sua da experiência clínica de vinte e cinco anos, e de todo o seu trabalho de investigação, realçava “a vastidão e extrema importância das repercussões psíquicas das experiências traumáticas pré-natais.”

As premissas básicas desta sua investigação são para mim, que trabalho em terapia psico-corporal com bebés, muito valiosas e determinantes. Joanna Wilheim enuncia-as resumidamente deste modo:

- Todo o processo de concepção biológica, desde a formação das nossas duas células germinativas básicas – espermatozóide e óvulo –, é registado numa proto-mente através de uma memória celular.

- Tais inscrições produzem uma matriz básica inconsciente que fornece a matéria-prima para a produção das nossas fantasias inconscientes.

Assim, as fantasias são memórias.

- Existe uma relação efectiva, absolutamente arcaica e primordial entre o nosso soma e a nossa psique.

- Há um trauma na altura da concepção.

Joanna Wilheim enfatiza a importância do reconhecimento dos vestígios deixados na mente pelos acontecimentos traumáticos pré-natais, para uma satisfatória condução do processo terapêutico analítico, e chama a atenção para a necessidade de a psicanálise voltar a sua atenção para a síndrome do sobrevivente de concepções gemelares, considerando que esta estaria na raiz de muitas psicopatologias.

Para saber mais sobre a obra de Joanna Wilheim leia os seus livros (clique nas imagens para conhcê-los), ou um texto seu em Artigos relacionados.

domingo, 20 de setembro de 2009

Nancy Greenfield explica

Como me são sempre colocadas questões quanto à possibilidade de esta hipótese que apresento aqui ser especulativa, uma mera divagação de algumas pessoas que resolveram acreditar em histórias cheias de imaginação (que no lugar de fantásticas fadas e duendes colocaram adoráveis gémeos, trigémeos e outros múltiplos) recolhi afirmações de uma pessoa idónea que investiga e trabalha há anos com esta matéria. Pedi à psiquiatra e neurologista Drª Nancy Greenfield, de Maiami FL, que fizesse um comentário que achasse mais pertinente para nós, e aqui está a sua explicação clara e concisa:

“Com base na minha pesquisa e na investigação actual da psicologia tradicional, posso afirmar que o relacionamento entre gémeos é o mais íntimo de todos os relacionamentos humanos. Consequentemente, a experiência de perder um irmão gémeo em qualquer momento ao longo da vida pode ser a mais dolorosa das perdas de relacionamento humano. Costumava-se pensar que a perda de um filho era para uma mãe (pai) a forma mais sofrida de perda. Hoje considera-se que a perda de irmãos gémeos tem condições para ser mais dolorosa. Isso acontece porque a relação entre gémeos é mais próxima, mais íntima e mais entrelaçada (física-, emocional-, psicológica- e espiritualmente) que a relação entre a mãe e seu filho.

É importante dizer que, devido à ligação profunda entre gémeos, a perda de um irmão gémeo, independentemente da idade em que ocorra, pode deixar no sobrevivente marcas para toda a vida. Essas marcas variam e podem afectar a forma como o gémeo sobrevivente se sente a si próprio: inclui questões de auto-estima; o sentimento de que a vida é um caminho seguro ou inseguro; como sente os relacionamentos, se acredita na possibilidade de serem estáveis ou não; assim como outras crenças, expectativas e percepções sobre a sua experiência de vida. Pode haver uma sensação de falta de alguém que devia acompanhar o gémeo sobrevivente ao longo da sua vida, bem como uma sensação de incompletude e profunda solidão. Podem persistir ainda sentimentos de perda não identificada, tristeza, culpa, saudade ou confusão, etc.

Dada esta explicação sobre a profundidade e a intimidade gemelar, quero referir que a minha área de trabalho, conhecida como "psicologia pré- e perinatal" (PPN), acredita que desde a concepção há consciência presente no novo ser.

Acredita também que talvez até 70% de nós, que pensamos ser singulares, podemos na realidade ter sido concebidos como gémeos ou múltiplos, tendo um ou mais dos gémeos morrido durante as primeiras semanas da nossa gestação. Isto é conhecido como o "gémeo morto" ou "o síndrome do gémeo desaparecido".

A pesquisa da PPN sugere então que devido à presença de consciência já no útero a relação gemelar embrionária tem o mesmo nível de intimidade que uma relação de gémeos após o nascimento e durante outros períodos da vida. Portanto, uma perda de um dos gémeos durante a fase embrionária e uma perda que ocorra a qualquer momento durante a gestação, pode ser tão devastadora e dolorosa para o embrião/feto ou pré-nascido sobrevivente como uma perda que ocorra a qualquer momento após o nascimento e ao longo da vida."
Nancy Greenfield, Ph.D., R.C.S.T.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Desvendando o nosso segredo

No dia 17, sábado, apresentei pela segunda vez publicamente este que é um dos maiores e mais bem guardados segredos do nosso tempo: a história da vida pré-natal dos gémeos sobreviventes.
Éramos cerca de 12 pessoas no restaurante Ki em Aveiro, onde apresentei uma selecção de slides e um excerto do Programa televisivo que a RTP2 passou dia 11 deste mês - Milagres no Útero -, sobre Gémeos e Múltiplos.
Entre os presentes alguns tinham irmãos gémeos vivos, outros tinham perdido os seus irmãos gémeos à nascença, uns já tinha pensado na possibilidade de terem tido um irmão ou irmã gémea durante a sua gestação, e outros nunca tinham ouvido falar desta história. Mas segundo o que me disseram depois, todos ficaram com a sensação de terem tomado consciência de algo importante e revelador.
Pessoalmente fiquei mais uma vez muito feliz, porque cada vez que falo deste tema publicamente sinto que estou a honrar e a dar voz aos meus companheiros de gestação.

E aproveito para deixar escrito que a Althea Hayton, a fundadora e grande impulsionadora da Associação Wombtwin.com vai estar em Portugal em Abril deste ano para uma palestra ou workshop. Em breve darei mais pormenores desse evento, mas se quiserem receber informação detalhada podem deixar-me o vosso contacto enviando um e-mail para cpinheiro02.@hotmail.com

Aos poucos e poucos vamos espalhando a notícia!
Obrigada pela vossa presença.

Identidade

A identidade é um tema incrivelmente complexo para quem sobreviveu in-útero a perda de um gémeo. A questão põe-se constantemente: Quem sou eu? Serei eu Eu, ou serei o Outro? Serei eu dois? Seremos nós um só?
No caso dos sobreviventes que tiveram um gémeo do sexo oposto para além da indefinição de identidade surgem também as indefinições de género. Porque é que como homem sinto tanta necessidade de me exprimir através da minha energia feminina? ou, de onde me surge tanta energia masculina se sou uma mulher?

Na cultura nativo-americana original os chamados Two Sprits (Dois-Espíritos) também intitulados Twin Sprits (Espíritos-Gémeos) eram indivíduos que apresentavam indefinição de género, quer fosse a nível das características da sua personalidade, dos estilos de vida que escolhiam, da sua opção sexual, ou mesmo a nível dos órgãos genitais.

Conforme a tribo a que pertenciam eles usavam vestes próprias e segundo o que intuitivamente sentiam ser a sua missão eram curandeiros, artistas, profetas, ... Estes indivíduos eram considerados do terceiro género porque não se identificavam nem com as características definidas para os homens nem com as que eram apropriadas para as mulheres. Venerados como extraordinárias fontes de informação sobre a natureza humana, acreditava-se que eles tinham o poder de trazer à sua tribo um maior equilíbrio entre os princípios masculino e feminino.

É interessante observar que para o povo Navajo a história da Criação se desenrola em torno de lendas que incluem numerosos pares de gémeos (entre os Lakota os gémeos eram "wakan" sagrados). Numa das maiores cerimónias dos Cheyenne, a “Dança do sol” que celebra a Nova Vida, eram Two Spirits os líderes do ritual sagrado. Este hino à Nova Vida evidencia a consciência de que a Vida só é possível quando flui a partir das energias mágicas da gemelaridade, aqui entendida como o conceito da dualidade: na vida, no mundo natural, tudo existe em equilíbrio - masculino/feminino, grande/pequeno, luz/escuridão, bom/mau, céu/terra.

Com uma atitude que nutre e abarca todas as coisas dando-lhes protecção e apoio indiscriminados, e uma grande abertura nomeadamente para aceitar e apreciar a complexidade humana, a sabedoria ameríndia acolhia os Twin Spirits ou Two Spirits com reverência e alegria.

Uma ideia que me sugere esta comovente tradição: serão aqueles que perderam irmãos gémeos no útero materno literalmente a morada física de duas ou mais entidades espirituais? e também, terão estas pessoas competências muito próprias, mas pouco exploradas por uma sociedade ocidental que não recebe bem a diversidade e a diferença?

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Wombtwin Day

A Associação Wombtwin.com estabeleceu o dia 21 de Dezembro como o Wombtwin Day – O Dia dos Sobreviventes de Gestações Múltiplas ou Gémeos Singulares.

Esta data é uma das três em que é festejado São Tomé, chamado "o Gémeo" na Bíblia. Tomé não é propriamente um prenome, mas sim a palavra equivalente a gémeo, vindo do aramaico Tau'ma (תום). Muito se discute de quem ele teria sido irmão gémeo. A festa Ocidental é a 21 de Dezembro, em igrejas Católicas romanas e sírias é a 3 de Julho, e na igreja grega é a 6 de Outubro.

Nos EUA e noutros lugares, o dia 3 de Julho está já bem estabelecido como a data em que pares de gémeos celebram a sua gemelaridade, pelo que não seria uma data conveniente para nós gémeos sobreviventes. 21 de Dezembro sim, faz sentido por duas razões:

  1. porque a data fica cerca de 7 meses antes do Dia de Gémeos (3 de Julho) e muitos gémeos "desaparecem" por volta das 8 semanas;

  2. porque sendo o dia mais escuro do ano, o solstício de Inverno, depois dele movemos-nos lenta e suavemente na direcção da Luz de um novo Verão (quantos sobreviventes não se encontram num lugar muito escuro, e quando descobrem esta sua condição, quase instantaneamente, começam a mover-se na direcção da luz).

Como forma de comemorar o dia 21 de Dezembro e de recordar o irmão perdido no sentido da cura e do alívio desta ferida, Althea Hayton convidou os sobreviventes a realizarem nesse dia algum tipo de ritual ou introspecção.

As afirmações que a seguir se apresentam foram propostas por Althea como ideias para quem quisesse realizar um ritual e não sabia como, mas como ela própria afirmou, chegava o simples facto de guardar alguns minutos desse dia para recordar o seu irmão gémeo.

  • Deixo-te agora para ires em liberdade para onde deves estar, já que sei que nunca estiveste destinado a estar aqui comigo.
  • Por manter-te próximo de mim, para me ajudares, não podeste ir para a tua nova morada. Vai agora; é seguro para ti partires assim como o é para mim para ficar.
  • Sinto a tua passagem por mim e compreendo que o que me trouxeste foi como uma ligeira sombra da relação gemelar num fragmento de memória , apenas isso…
  • Estou aqui, tu não. Ficarei por cá mais algum tempo, e logo nos reencontraremos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"Gémeos amalgamados"

Através de um teste de ADN chegou-se à surpreendente conclusão que uma mulher inglesa não era a mãe dos seus próprios filhos, gerados de modo natural. De facto o ADN do seu sangue e o ADN do tecido dos seus ovários não coincidia: ela é chamada uma quimera humana.
Põe-se então uma questão: será a irmã gémea desta mulher, fisicamente fundida no seu corpo, a mãe dos seus próprios filhos? Podemos dizer que esta mulher inglesa é na realidade a fusão de duas pessoas, duas irmãs gémeas fraternas.
A medicina considera pessoas constituídas por dois tipos de células geneticamente diferentes quimeras humanas. São pessoas "como nós" que no seu corpo contêm ADN provenientes de dois blastocistos diferentes que se fundiram em determinada fase do seu desenvolvimento (ver aqui artigo em inglês).

A olho nu o quimerismo é dificilmente visível, sendo apenas possível de reconhecer em pessoas que têm genitais sexualmente ambíguos (hermafroditas), ou ainda quando partes de tecido diferem geneticamente umas das outras, fenómeno também chamado de mosaicismo. Na pele este fenómeno denomina-se de linhas de Blaschko, mas pode também observar-se quando a cor dos olhos ou dos cabelos é diferente de cada lado do corpo, quando há assimetrias.

As quimeras mais frequentemente relatadas têm sido descobertas através da fenotipagem sanguínea, detectando-se algumas pessoas que possuem dois tipos de sangue diferente. Em irmãos gémeos fraternos encontram-se algumas dessas quimeras sanguíneas porque, estando as suas placentas interligadas, eles partilharam o fornecimento de sangue no útero (o que permitiu a troca de embrionic stem cells sanguíneas e a sua consequente introdução na medula óssea do gémeo receptor). No caso das quimeras sanguíneas que não têm irmãos gémeos, a medicina aceita a hipótese de se estar perante a síndrome do gémeo desaparecido.

Afirma Charles E. Boklage geneticista e especialista em gemelaridade da East Carolina University, que nos últimos 20 anos tem estudado o desenvolvimento e a estrutura genética nomeadamente de gémeos: “(a quimera humana)…embora raramente seja detectada, pode não ser rara. Possivelmente alguns de nós somos provenientes de dois embriões... Ocasionalmente, encontramos dadores de sangue que transportam dois tipos diferentes de sangue: isso poderá significar que gémeos fraternos se fundiram no ventre materno em um só corpo. Naturalmente, não há nenhum modo de determinar a fusão de gémeos idênticos, já que os seus genes e os tipos de sangue são iguais.
Nestes casos os gémeos não desaparecem; eles ficaram amalgamados."

O quimerismo pode considerar-se então um terceiro fenómeno de gemelaridade para além dos dois de que se tem conhecimento: gémeos monozigóticos e dizigóticos.
Enquanto a divisão dos blastómeros (óvulos fecundados) dá origem a gémeos idênticos, o quimerismo dá-se pela fusão de dois blastómeros, quer sejam eles oriundos de dois óvulos fecundados diferentes, ou de um mesmo óvulo fecundado que se dividiu.

Quimeras são pessoas duais, gémeos de si próprios.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O feto é inteligente

O 1º encontro de gémeos que se realizou em Óbidos há um ano atrás terá sido um bom motivo para pais de gémeos se conhecerem e trocarem experiências, e para os gémeos presentes partilharem aquilo que todos os gémeos têm em comum - a sua condição de não terem sido gerados sozinhos, logo, de terem uma relação excepcionalmente próxima com um irmão ou irmã.
Para além deste motivo mais festivo, Isabel Seara, organizadora do encontro e vice-presidente do Grupo de Gémeos, também aproveitou, em bom tempo, para dar visibilidade à problemática da redução selectiva ou interrupção de gestações multifetais na reprodução medicamente assistida por técnicas de inseminação artificial, (pode ler mais sobre o assunto em inglês aqui) dizendo, como pode ler-se no
Jornal Oeste Online, que “o Estado não se deve imiscuir na vida privada das famílias e das grávidas que optaram pela inseminação artificial”. O seu argumento é então considerar que “a felicidade da fertilidade se sobrepõe ao risco da gravidez de múltiplos”.

Há aqui uma informação importante em falta, relacionada com a vivência do feto que fica depois de se ter interrompido a gestação do/s seu/s irmão/s gémeo/s.
Como sabemos, por experiência própria, a alma do feto "tem o tamanho" da alma do adulto! Ele sente o que se passa à sua volta, e mais do que isso, tem acesso aos sentimentos das pessoas que o cercam, possivelmente através da mãe. Existe uma comunicação intensa (fisiológica e/ou espiritual) entre o embrião e a mãe desde a formação do blastocisto, ficando tudo registrado na extraordinária capacidade da sua memoria celular (ou espiritual).
Temos que nos colocar a questão de como se sentirá uma pessoa que "sobreviveu" a uma intervenção médica em que indiferenciadamente os seus irmãos foram eliminados?

Este caso narrado por Thomas Verny e John Kelly no seu livro A Vida Secreta da Criança antes de nascer, uma referência da psicologia pré e peri-natal, demonstra a consciência que o feto tem de tudo o que se passa com a sua mãe e a sua envolvente
.
O Dr. Peter F. Freybergh, professor de obstetrícia e ginecologista da Universidade de Upsala, na Suécia, observou que Kristina, um bebé robusto e bem comportado, revelou um estranho comportamento: recusava-se a mamar no seio da mãe. Aceitava o biberão ou o seio de outras mulheres, mas não queria nada com o alimento materno. Dr. Peter, indagando da mãe a razão de tal comportamento, recebeu um “não sei” como resposta. Quando, porém, o Dr. Peter foi mais incisivo na pergunta: “Mas você desejava realmente esta gravidez?”. Ela esclareceu: “Eu queria abortar, mas o meu marido desejava esta criança, então, mantive-a”. “Isto era novidade para o Peter, mas obviamente não o era para Kristina”, comenta o Dr. Verny; “Afectivamente rejeitada no útero, Kristina, com apenas quatro dias de vida e inteiramente dependente, estava firmemente decidida a rejeitar a sua mãe”.

A Dra. Joanna Wilheim, Presidente da Associação Brasileira para o Estudo do Psiquismo Pré- e Peri-Natal, afirma com base nos seus estudos científicos que “Se conceituarmos inteligência como a capacidade para auto-gerir-se mentalmente; adaptar-se e adequar-se a situações novas; seleccionar condições e aproveitar experiências – o que implica aprendizado e memória -, podemos concluir que de facto elas estão presentes no feto desde o período inicial da gestação”.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sair do buraco negro

Depois de encarada a possibilidade de ter tido um irmão gémeo vem um longo e incontornável caminho de re-conexão com o tempo em que se deu a separação no sentido de se reviverem os sentimentos da altura. É quase uma época de “regressão penosa”, que demora sempre demasiado tempo. Parece haver uma enorme inércia em sair desta fase do caminho da cura para entrar numa nova condição. Althea Hayton chama-lhe o buraco negro.

A dor que assola nomeadamente o sobrevivente de gémeos idênticos é uma dor original impressa no mais profundo do seu ser e do seu corpo, na medula dos seus ossos. Mesmo se foram apenas poucas semanas, aqueles momentos antes do desaparecimento do seu irmão (inclusivé numa morte gradual) tiveram inevitavelmente um final inesperado e abrupto: um trauma que conduz a um sentimento de abandono, de falta insondável para o resto da vida. A pessoa sente-se em maior ou menor grau enredada numa teia de tristeza que não consegue explicar. É um sofrimento auto-destrutivo que a dada altura a empurra para a depressão ou mesmo para a morte (com exemplo o psicólogo Eduardo Sá afirma que a grande maioria dos toxicodependentes são gémeos sobreviventes).

A ferida vem do início da sua existência. O seu desgosto é como uma onda que vem do fundo do seu corpo, da sua memória celular, deixando-o impotente perante todo aquele poder destrutivo.
A referência que ele tem da vida antes do trauma, quando tudo estava bem, quase não existe, e além disso: – No início eu não estava só, eu “era mais alguém…" Esta é a sensação que retém e que o persegue, mesmo sem nunca ter sabido que o seu irmão existiu.

Na realidade ele tem uma memória recôndita, ancestral, do que era ser feliz, e estar em paz. A sua dor existe porque existe esta memória de plenitude, e é exactamente esta memória que testemunha a sua capacidade de voltar a sentir-se bem. “Mesmo que o ser humano viva dentro de um forno, nem por isso será pão. Uma situação não altera a essência. A cura na verdade, é o retorno à essência.” (Lauro Trevisan)

O gémeo idêntico foi gerado a partir de um blastocisto que se subdividiu, o que origina um incontestável vínculo espiritual entre os dois.
Mas no entanto ele é hoje um ser humano autónomo de corpo e alma – por definição saudável e perfeita. A vida é possível na totalidade, mesmo sem aquele que no início o sobrevivente considerou ser a “sua outra metade”. Ele estava enganado... sentia como bebé que era... mas o seu irmão, não era a sua “outra metade”!

Althea fala da necessidade de acordar do sonho do ventre para a vida hoje. Só existimos agora, já somos adultos, o passado já não existe. “Seja inteligente: descarregue o seu fardo, pois é inútil e só conduz ao sofrimento. Deite fora o lixo. A desgraça aconteceu, mas já não existe”, afirma ainda Trevisan.
Realmente não se trata de minimizar o sofrimento, mas apenas de compreender que o sofrimento não é a pessoa: aquele foi um episódio da vida. “O lixo” aqui são a angústia, o medo, a resignação, o ressentimento ou outras emoções frias resultantes da morte do querido irmão ou irmã gémea. O sofrimento é provocado por estas emoções que o “destino” causou, e são elas que têm de ser eliminadas, não o amor - não há necessidade de negar o ímpeto interior de recordar alguém que se amou tanto, nem de deixar de trazê-lo no coração.

Quando confundido com a dor da perda, o vínculo de amor que o sobrevivente nutre pela sua saudosa companhia limita, atrofia e destrói a pessoa.

Perdoar-se a si próprio por esta confusão, e perdoar o irmão desaparecido pela sua ausência é antes de mais um passo essencial. Como diz mais uma vez Lauro Trevisan “Além de ser um gesto de boa vontade e tolerância, o perdão é principalmente uma questão de inteligência, pois o acto de não perdoar adoece a pessoa, causa stress, parte a ponte que nos liga ao outro.”

Com a humildade do perdão e uma atitude propositada de anular e esquecer a dor da perda é mais fácil ultrapassar esta estranha fase do buraco negro.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Falar com os bebés

Um exemplo de como o tratamento precoce em gémeos sobreviventes pode salvar vidas, e prevenir distúrbios psico-somáticos:
Myriam Szejer, pedopsiquiatra, pratica há mais de dez anos junto de mães e bebés um tipo de terapia chamada de escuta pós-parto. É um tratamento através da palavra, indicado para prevenir ou curar doenças e alguns distúrbios somáticos ou funcionais dos recém-nascidos. Diz a pedopsiquiatra que “É importante falar com a criança de uma maneira geral porque se trata de um ser humano, envolvido pela linguagem e portanto ávido dessas palavras que o constroem, mesmo a nível inconsciente. Às vezes há verdades fundamentais que dizem respeito à sua história e que se torna essencial dizer-lhe o mais cedo possível, para evitar que ela sofra por causa delas. Essas palavras permitem à criança organizar suas percepções e dar-lhes um sentido.”
No seu livro Palavras para Nascer, Myriam Szejer relata o caso de uma gravidez gemelar em que havia uma malformação muito grave numa das gémeas. Segundo prognósticos médicos depois de nascer ela teria um curto período de sobrevivência. A interrupção in-útero da vida desse feto foi feita já tadriamente, tendo o feto morto permanecido no útero até ao nascimento por cesariana da irmã sobrevivente, que se deu 15 dias depois. Tal como previra a Dra. Szejer, a gémea sobrevivente, de nome Léa, teve sérios problemas logo após o nascimento: não se alimentava e quando era amamentada à força, regurgitava imediatamente, colocando em risco a sua própria vida.
O problema foi tratado num trabalho muito intenso, com muitas conversas com Léa. Como explica a pedopsiquiatra "No caso da morte de um irmão gêmeo durante a gravidez, é preciso explicar ao que sobreviveu que ele poderá guardar no coração a lembrança de seu irmão ou da sua irmã, mas que ele não o verá mais."
Em duas semanas a recém-nascida conseguiu assimilar a situação da falta da sua gémea, a sua própria situação de sobrevivente, e a dificuldade em se alimentar desapareceu. Ao ser ajudada a fazer o luto da irmã ela pode recuperar do choque que viveu ainda antes de nascer.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ressentimento ou raiva constantes

O Sonho do Ventre é, segundo Althea Hayton, uma impressão vaga e inefável, uma memória perdida, que permanece profundamente implantada na parte mais primitiva do nosso cérebro. Não sendo exactamente um sonho, esta é a palavra mais adequada para descrever o que obviamente está além das palavras.
Psicólogos, embriologistas e terapeutas de várias disciplinas têm vindo a debruçar-se sobre os efeitos da experiência pré-natal na mente do indivíduo sobrevivente. Hoje em dia já é consensual entre os investigadores a crença de que todos nós transportamos uma impressão da nossa vida antes do nascimento.

O aspecto interessante do Sonho do Ventre do gémeo sobrevivente é a necessidade de manter vivo aquele sonho, pois é lá que se encontra o seu irmão perdido. A consequência de ter sobrevivido a essa perda não se resume à solidão e ao abandono. Ressentimento ou raiva, são forças destrutivas que podem igualmente consomir lentamente muitos gémeos singulares.

O ressentimento é aquela sensação que surge na sequência de Grandes Males. A pessoa que vive com uma sensação constante, secreta e inquieta de ressentimento, é obrigada, dia a dia, a direcionar para esse sentimento, um incrível montante de energia.
• podemos ressentir-nos de algum dano no passado ou algo de que fomos vítimas;
• podemos ressentir-nos do facto de que algo é injusto;
• podemos ressentir-nos de alguém que simplesmente não entende como nos sentimos;
• podemos ressentir-nos do mundo ser como é, cheio de dor e sofrimento.
O ressentimento é poderoso porque contém zanga e sofrimento - tem um cunho de auto-preservação; sente-se digno porque há que proteger os direitos de alguém; ou, sente-se absolutamente autêntico porque aquelas sensações são muito verdadeiras.
E se na realidade tivermos mesmo perdido alguma coisa? e se houve uma luta entre a vida e a morte? E se o mais débil realmente faliu? E se a nossa vida veio à custa da vida de alguém outro? E se o que nos retém for a culpa de ter sobrevivido?

Outros passam de uma depressão profunda para uma raiva tal, que atacam tudo e todos sem se preocupar a quem prejudicam. A mensagem é clara; "quero que o mundo sinta a minha dor!"
Esta raiva vem da expressão directa da rejeição pré-natal. Não foi a mãe quem nos rejeitou, foi o irmão gémeo por simplesmente desaparecer. A resposta típica a esta sensação de rejeição e traição é entrar em colapso, desamparo e desespero, enfurecer-se contra o outro e contra a injustiça do mundo, e/ou recusar simplesmente implicar-se na vida.
"A nível emocional, a raiva é uma resposta desolada, solitária e apavorada ao Buraco Negro, onde lhe foi originalmente feita uma promessa de luz e amor. Aquela promessa brilhante da vinculação com o irmão gémeo (a vinculação mais próxima que existe na natureza) não foi cumprida, deixando só escuridão: - um sentido de falta, de perda e de vazio." Althea Hayton
Esta raiva actua de modo alienado mas não é louca. Pode ser entendida. Ela é uma raiva contra a Natureza; contra Deus; contra o modo como as Coisas São. A vida é simplesmente inaceitável - não suportável - sem Outra Metade. Althea diz ainda: "Como Narciso, que viveu até a sua morte na contemplação arrebatada da sua imagem reflectida, ignorando amor e vida, o sobrevivente idêntico parece-se com um zombi, só meio-vivo."

Para o sobrevivente o ressentimento ou a raiva são provavelmente o único modo de exprimir na vida aquelas suas sensações originais. Estes sentimentos parecem incontornáveis mas podemos curá-los. Apenas temos que acordar para realidade, para o calor da nossa vida depois do nascimento: que estamos rodeados do amor, de gente que deseja ser nossa amiga; que ninguém está a tentar prejudicar-nos; que a dor é nossa, não é uma dor que nos está a ser imposta.
Quanto mais tempo levarmos a perdoar, a deixar ir, e a rendermos-nos pacificamente ao modo como as coisas são, mais tempo viveremos em dor e solidão.
"Você está a criar a sua dor e só você pode curá-la, simplesmente desculpando a privação que lhe coube nesta vida." Althea Hayton

Baseado em:
Keeping the dream alive, Constant, secret, seething resentment, The rage of the identical wombtwin survivor

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Tradição africana

Entre os Iorubas, uma das maiores tribos africanas, nasce um grande número de gémeos: um em cada 22 a 24 nascimentos, enquanto a média mundial anda em um por cada 85 nascimentos.
O culto dos gémeos dos Iorubas dita que a alma dos gémeos é indivisível. Assim, se uma das crianças morre, eles criam um substituto para o gémeo sobrevivente. Um carpinteiro é incumbido de fazer uma pequena figura de madeira que vai servir de lar à alma da criança falecida. A figura de madeira do gémeo -ibeji- é vestida, enfeitada com jóias, lavada e untada com óleos, e é tratada do mesmo modo que a criança viva, sendo mesmo colocada ao peito.
Quando mais crescida a criança passa a carregar a sua "outra metade" ao pescoço ou à cintura.

Da nossa perspectiva esta tradição, para além de integrar a criança falecida na família, ajuda o gémeo sobrevivente a reconhecer a sua perca, com os benefícios que daí advêm - reconciliar-se com a sua dor, e fazer um luto com consciência.

Ver mais informação relacionada com os rituais africanos aqui.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Bebés gémeos sobreviventes

Gémeos sobreviventes partilharam a sua vida intra-uterina com um ou mais irmãos gémeos, o que significa que a gravidez começou com dois, ou mais, bebés e terminou apenas com um. O irmão gémeo pode ter morrido em qualquer etapa da gravidez até ao momento do nascimento, incluindo aqui o chamado síndrome do gémeo desaparecido, amplamente observado e estudado pela medicina.

A perda de um gémeo, como qualquer outro acontecimento marcante (seja positivo ou negativo) durante a gestação, terá um efeito potencial no desenvolvimento da personalidade desse indivíduo. A psicologia pré-natal está hoje bem estabelecida e já podemos afirmar com certeza que a nossa vida no ventre tem muita influência na formação da nossa personalidade. Os gémeos sobreviventes são um caso especialmente interessante nesta matéria.

Muitos meios-gémeos manifestam nas suas vidas, e nomeadamente na adolescência, ansiedades e outros indícios resultantes da vivência de morte por que passaram mesmo antes de nascer. Mas também há casos de gémeos sobreviventes que não apresentam na sua vida futura nenhum tipo de angústias profundas. A pergunta é, a que se deverá essa diferença.

A qualidade do vínculo que a mãe estabelece com o seu bebé durante a gravidez, logo depois do nascimento e nos primeiros meses, tem uma importância crucial para que sejam reduzidas as consequências emocionais negativas nomeadamente as que os gémeos sobreviventes enfrentam. Para estas crianças um vínculo de qualidade com a mãe poderá ajudar a curar precocemente a ferida que eles trazem da sua vida intra-uterina. Se a dor e o luto forem partilhados com a mãe desde o primeiro minuto, se ela acolher os lamentos do bebé e lhe poder oferecer o apoio que ele necessita, é provável que ele venha a ter mais facilidade em superar essa perca.

Com um contacto corporal muito próximo, e uma disponibilidade e entrega emocional da mãe para estar e cuidar do seu filho nos primeiros meses, ele terá a oportunidade de se ir libertando da sua condição gemelar inicial, tomando consciência do seu próprio ser individual e único. Este é o “método” usado entre povos naturais para cuidar dos seus filhos, eles sabem que para um bebé crescer emocionalmente saudável ele precisa de um cuidado atento, próximo e permanente nos primeiros tempos de vida.

O toque é uma necessidade básica de qualquer recém-nascido, ajuda-o a reconhecer o seu envelope corporal e a construir assim a sua identidade própria. No caso do nosso bebé sobrevivente de uma gravidez gemelar, o toque é especialmente importante para que ele possa crescer assumindo-se como uma só pessoa inteira. Porque esta é a dor dos gémeos sobreviventes – o facto de lhe faltar uma parte (o seu irmão gémeo) - de quem eles pensavam que eram.

Naquela fase precoce do seu desenvolvimento, em que se deu a tragédia, o indivíduo ainda não conseguia diferenciar claramente entre quem ele era, e quem era aquela criaturazinha que crescia a seu lado. Existe nele a tendência para a confusão de identidades. Com a ajuda de uma mãe informada, que está lá, que o recebe e lhe dá um apoio seguro, ele terá os fundamentos para ultrapassar com sucesso essa dificuldade.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Lidar com crianças meio-gémeas

Muitos meios-gémeos manifestam nas suas vidas, e nomeadamente na adolescência, ansiedades e outros indícios resultantes da vivência de morte por que passaram mesmo antes de nascer. Mas também há casos de gémeos sobreviventes que não apresentam na sua vida futura nenhum tipo de angústias profundas. O que podem então os pais fazer pelos seus filhos gémeos sobreviventes na fase da infância para ajudar?

Em primeiro lugar, caso não tenham já a certeza quanto à existência de um gémeo desaparecido na gestação do seu filho será necessário observar a situação, fazer um diagnóstico. Com a ajuda da seguinte lista de sinais característicos geralmente presentes em crianças meias-gémeas, pode chegar à conclusão se o seu filho pertence ao grupo dos gémeos sobrevivente. Se ele apresentar algumas destas características: é diferente das outras crianças; é muito empático, sensível ao ambiente que o rodeia; tem uma imaginação rica, criativa; fala muito sobre a morte; gosta muito de animais; tem um amigo imaginário; interessa-se pela espiritualidade; mas por outro lado, se é excluído pelos amigos; odeia competir e prefere trabalhar em conjunto com toda a gente, se tem baixa auto-estima; não gosta de dormir sozinho; parece perdido e sozinho, ou se é hipersensível, pode por a hipótese, com muita probabilidade, de que ele tenha vivido a morte do seu irmão gémeo, uma situação de extrema perturbação emocional, no início da vida intra-uterina dele.

Pode ainda perguntar-lhe directamente se ele se recorda de ter havido mais alguém com ele quando estava na barriga da mamã. Esta pergunta deve ser feita num momento em que ele esteja calmo, sozinho consigo, antes de adormecer, por exemplo. Normalmente as crianças têm uma grande facilidade de entrar em contacto com essa memória recôndita. Se ele se recordar de algo pode perguntar-lhe ainda: – E como é que te sentias com ele/a?, ou – O que foi que aconteceu depois? A criança pode ficar triste ou perturbada, abatida mesmo, e se for esse o caso dê-lhe todo o conforto possível acolhendo a sua tristeza. Ela estará a fazer um luto, e esse processo é muito curativo para ela.

As investigações nesta área parecem indicar que se um indivíduo souber desde cedo que teve um gémeo, esta informação passa a fazer parte dele, ajudando-o a compreender melhor as suas sensações. Deste modo ele saberá que está a responder de modo perfeitamente normalmente à real perda da sua "outra metade". O melhor que os pais destas crianças podem fazer é contar-lhes desde o início que tiveram um irmão gémeo.

Tomando estas medidas de prevenção pode ter mais meios para lidar melhor com o seu filho:

- Informar-se acerca dos pormenores médicos da gravidez dele, de modo a poderem ir respondendo às perguntas do filho à medida que forem surgindo.

- Manter-se informados sobre os potenciais efeitos psicológicos da perda pré-natal de um dos gémeos de modo a aperceber-se atempadamente se surgirem problemas.

- Entrar em contacto com outros pais de gémeos sobreviventes para suporte mútuo e partilha de informação.

- Criar para o filho uma espécie de prova física do gémeo desaparecido: uma estátua, um brinquedo especial ou uma planta no jardim, etc. como foco das sensações de tristeza ou perda, para o caso que surjam.

- Validar as sensações do seu filho frente ao cepticismo dos outros, que gémeos sobreviventes realmente têm uma sensação de que lhes falta algo – mesmo que não lhe seja fácil acreditar nisto!

- Estimular o seu filho com amor e aceitação.

O facto do seu jovem sobrevivente ser "diferente" pode ser celebrado como um presente especial, já que eles são muitas vezes miúdos muito sensíveis e empáticos, e que gostam de cuidar de quem os rodeia.

Se tiver outras dúvidas pode contactar comigo directamente para wombtwin.pt@hotmail.com.

Bibliografia: Is your child a wombtwin survivor, What to tell my wombtwin survivor child and when

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Sinais corporais

Ao ler acerca deste assunto é possível que se questione: será que sou um Meio-gémeo sobrevivente? Eventualmente só terá uma resposta a esta questão com o passar do tempo, o nosso inconsciente faz um bom trabalho no que respeita a esconder traumas. É importante ir-se escutando a si próprio e não tirar conclusões precipitadas.

A memória intra-uterina, aparentemente longínqua, está sempre presente imediatamente atrás dos nossos olhos, é um filtro através do qual nós vemos o mundo. Se nos conseguirmos observar um pouco talvez nos seja possível identificar algo desse filtro.

Quando alguém que sofreu um trauma é exposto a uma situação semelhante à do seu trauma, ou que o leva a recordar, o corpo geralmente dá sinal através de determinadas reacções. São chamadas sensações corporais de activação do trauma que frequentemente se traduzem em tosse, tristeza, lágrimas incontroláveis, medo, sonolência, arrepios ou calafrios, raiva, escandalizar-se, mal-estar geral ou dores de cabeça, entre outras.

Há ainda outros sinais aparentemente banais que podem dar mais uma indicação sobre a probabilidade de ter tido ou não um irmão/ã gémeo/a desaparecido/a:
- Pode informar-se acerca da sua gestação, muitas vezes as mães que tiveram fortes hemorragias no primeiro trimestre da gravidez perderam um dos gémeos.
- Em situações em que a mãe faz um aborto e continuou grávida a criança que nasceu provavelmente não estava lá sozinha.
- Se já há mais gémeos na família.
- Se teve um nascimento traumático, prematuro, ou com baixo peso à nascença.

Se ao ler estes textos tiver algumas dessas reacções ou situações descritas, isso pode ser um indicador de que também é um gémeo sobrevivente.

Afinal somos um oitavo da população mundial!