Womb Twin - Portugal

Gémeos singulares são pessoas que partilharam parte da sua vida intra-uterina (na maioria das vezes apenas umas semanas) com um ou mais irmãos ou irmãs gémeos idênticos ou fraternos que não chegaram a nascer. O segredo mais bem guardado até hoje é que o pequeno embrião já tem consciência, já guarda memória.

HAVERÁ PESSOAS GÉMEAS NASCIDAS SINGULARES QUE SOFREM TODA A SUA VIDA, COMO CONSEQUÊNCIA DESSA PERDA DO SEU COMPANHEIRO INICIAL?

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O meu testemunho

Está quase a fazer um ano que descobri que no início da minha gestação eu não estava sozinha; estava lá mais alguém comigo, que depois desapareceu. As provas da minha condição de meia-gémea têm-me acompanhado durante toda a vida de forma latente, dando-me bastantes “dores de cabeça”.
Ao tomar consciência deste acontecimento, nos primórdios da minha vida, fez-se luz no meu espírito: então "caiu a ficha", e comecei a compreender-me melhor. Com o passar dos meses, aos poucos, dou-me conta de que me vou libertando de algumas limitações que me apoquentavam desde há muito. Finalmente posso desfrutar em consciência das alegrias, igualmente latentes, que o facto de ter sido gerada a partir de uma gravidez múltipla me traz.
Este poema, que escrevi com 17 anos, descreve um dos momentos em que a sensação de ser meia-gémea se declarava explicitamente:

Tenho andado agitada
disfarçada de doente.
O Natal não curou nada
nem sequer a própria mente.

Devia trazer felicidade,
paz de espírito, tranquilidade.
Não trouxe senão perguntas,
e comida sem vontade.

Criou um buraco fundo
pedindo pr’a ser tapado
com algo que não existe
mas devia ter cá estado.

Parece aquela saudade
dos fadistas portugueses,
mas como, e de quê? ,
pergunto eu tantas vezes.

Uma saudade assim,
sem ter princípio nem fim,
sem razão nem dimensão…
Isto mesmo... só a mim!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sair do buraco negro

Depois de encarada a possibilidade de ter tido um irmão gémeo vem um longo e incontornável caminho de re-conexão com o tempo em que se deu a separação no sentido de se reviverem os sentimentos da altura. É quase uma época de “regressão penosa”, que demora sempre demasiado tempo. Parece haver uma enorme inércia em sair desta fase do caminho da cura para entrar numa nova condição. Althea Hayton chama-lhe o buraco negro.

A dor que assola nomeadamente o sobrevivente de gémeos idênticos é uma dor original impressa no mais profundo do seu ser e do seu corpo, na medula dos seus ossos. Mesmo se foram apenas poucas semanas, aqueles momentos antes do desaparecimento do seu irmão (inclusivé numa morte gradual) tiveram inevitavelmente um final inesperado e abrupto: um trauma que conduz a um sentimento de abandono, de falta insondável para o resto da vida. A pessoa sente-se em maior ou menor grau enredada numa teia de tristeza que não consegue explicar. É um sofrimento auto-destrutivo que a dada altura a empurra para a depressão ou mesmo para a morte (com exemplo o psicólogo Eduardo Sá afirma que a grande maioria dos toxicodependentes são gémeos sobreviventes).

A ferida vem do início da sua existência. O seu desgosto é como uma onda que vem do fundo do seu corpo, da sua memória celular, deixando-o impotente perante todo aquele poder destrutivo.
A referência que ele tem da vida antes do trauma, quando tudo estava bem, quase não existe, e além disso: – No início eu não estava só, eu “era mais alguém…" Esta é a sensação que retém e que o persegue, mesmo sem nunca ter sabido que o seu irmão existiu.

Na realidade ele tem uma memória recôndita, ancestral, do que era ser feliz, e estar em paz. A sua dor existe porque existe esta memória de plenitude, e é exactamente esta memória que testemunha a sua capacidade de voltar a sentir-se bem. “Mesmo que o ser humano viva dentro de um forno, nem por isso será pão. Uma situação não altera a essência. A cura na verdade, é o retorno à essência.” (Lauro Trevisan)

O gémeo idêntico foi gerado a partir de um blastocisto que se subdividiu, o que origina um incontestável vínculo espiritual entre os dois.
Mas no entanto ele é hoje um ser humano autónomo de corpo e alma – por definição saudável e perfeita. A vida é possível na totalidade, mesmo sem aquele que no início o sobrevivente considerou ser a “sua outra metade”. Ele estava enganado... sentia como bebé que era... mas o seu irmão, não era a sua “outra metade”!

Althea fala da necessidade de acordar do sonho do ventre para a vida hoje. Só existimos agora, já somos adultos, o passado já não existe. “Seja inteligente: descarregue o seu fardo, pois é inútil e só conduz ao sofrimento. Deite fora o lixo. A desgraça aconteceu, mas já não existe”, afirma ainda Trevisan.
Realmente não se trata de minimizar o sofrimento, mas apenas de compreender que o sofrimento não é a pessoa: aquele foi um episódio da vida. “O lixo” aqui são a angústia, o medo, a resignação, o ressentimento ou outras emoções frias resultantes da morte do querido irmão ou irmã gémea. O sofrimento é provocado por estas emoções que o “destino” causou, e são elas que têm de ser eliminadas, não o amor - não há necessidade de negar o ímpeto interior de recordar alguém que se amou tanto, nem de deixar de trazê-lo no coração.

Quando confundido com a dor da perda, o vínculo de amor que o sobrevivente nutre pela sua saudosa companhia limita, atrofia e destrói a pessoa.

Perdoar-se a si próprio por esta confusão, e perdoar o irmão desaparecido pela sua ausência é antes de mais um passo essencial. Como diz mais uma vez Lauro Trevisan “Além de ser um gesto de boa vontade e tolerância, o perdão é principalmente uma questão de inteligência, pois o acto de não perdoar adoece a pessoa, causa stress, parte a ponte que nos liga ao outro.”

Com a humildade do perdão e uma atitude propositada de anular e esquecer a dor da perda é mais fácil ultrapassar esta estranha fase do buraco negro.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Meu Sósia e Eu

Esta manhã veio parar-me às mãos, numa livraria, o livro Meu Sósia e Eu, da editora Campo das Letras (1999). O título chamou-me a atenção: aos 92 anos o mestre Oscar Niemeyer edita um livro autobiográfico, e opta por destacar no título o binómio dos dois seres que ele sente serem ele! (em vez de usar simplesmente o seu nome, ou algum outro nome que o caracterize).

Este génio da arquitectura que no dia 15 de Dezembro de 2007 fez cem anos, desafiou a arquitetura com linhas sinuosas, extrapolou o modernismo, criou Brasília (junto com Lúcio Costa) e recentemente foi eleito o nono entre os 100 maiores génios vivos.

O livro tem por fim dar a conhecer os diversos ângulos da personalidade de Oscar Niemeyer - o Arquiteto, o Artista, o Escritor, o Criador, o Cidadão, o Amigo; as suas andanças, os seus amigos, a sua familia, as coisas que lhe interessam.

Diz Oscar Niemeyer no prefácio, explicando um pouco melhor quem é, e que tipo de relação tem com este seu sósia:

«Meu sósia vem de longe, de outros continentes, de tempos tão distantes que deles só os livros podem lembrar. Mas vem também de áreas mais próximas, vem de Maricá onde nasceram meus avós (…)
Nada tenho a me queixar deste intruso que dentro de mim existe há anos, e me cerca com seus conselhos.
Mais puro do que eu – desconhece todos os preconceitos da sociedade – ele me sugere coisas impossíveis. Mas é honesto, despensa bens materiais e é leal e generoso, o que facilita essa conversa diária que mantemos.
Gosta de beleza. A mulher o fascina e a natureza o emociona. Muita coisa nos identifica. (…)
Não é difícil levá-lo para os problemas sociais. Seu feitio fraternal facilita.
E assim vamos nós de mão dada, sonhando melhorar o mundo. (…)
Curioso, meu sósia quer ocupar-se de coisas em demasia. Desenhar, fazer esculturas e literatura. Procuro contê-lo, fazendo autocrítica, ouvindo os amigos, lendo muito.Mas ele insiste. Diz que a arquitectura deve estar ligada a todos os assuntos da cultura e lembra como afirmativas de Heidegger e Malraux me foram úteis na defesa de meus projectos. Tudo o que faço tem sua participação e com ele divido o que vocês acharem de bom ou ruim neste livro


Encontrei mais esta frase sua, de uma outra ocasião: “Acho muito bom a pessoa se recolher e ficar pensando em si mesma, conversando com esse ser que tem dentro dela, que é nosso sósia, né? Eu converso com ele a vida inteira.”

O que nos ensina este mestre centenário é de uma simplicidade comovente: com imensa lucidez ele ousa aceitar, acolher e dialogar com aquela outra parte de si próprio, a quem ele chama o seu sósia interior. E mais que isso, ele apresenta-o e louva-o publicamente em diversos momentos, ao ponto de lhe dar o maior protagonismo quando edita um livro com as suas obras e eventos principais, as mais queridas, tudo o que mais o caracteriza como pessoa.

É integrando na nossa vida aquele ou aquela que sentimos ser o nosso sósia dentro de nós, dando-lhe um lugar concreto, um espaço real, acreditando na sua existência e poder, que nos podemos curar da dualidade que está entranhada no nosso ser. É validando os nossos sentimentos perante nós próprios e os outros falando deles a todo o mundo, que nos vamos libertando da dor da perda para então podermos atingir o nosso verdadeiro potencial.

domingo, 24 de agosto de 2008

Mário de Sá Carneiro

Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje quando me sinto
É com saudades de mim.

...

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo.
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida,
Assim eu choro da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
uma gentil companheira
que na minha vida inteira
eu nunca vi, mas recordo.

A sua boca dourada
e o seu corpo esmaecido,
Em um hábito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
são do que nunca enlacei.
Ai como tenho saudades
dos sonhos que não sonhei!...)

...


Partida
...

Ao triunfo maior, avante pois!
O meu destino é outro - é alto e é raro.
Unicamente custa muito caro;
A tristeza de nunca sermos dois...

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Esta é uma história de amor...

Uma canção de Adriana Partipim (animada por um fan, imagino) que, lida do nosso ponto de vista, dá uma ideia do sentimento de saudade e falta que gémeos sobreviventes muitas vezes experimentam. Ora vejam:

Há muitos mais cantores, poetas, e artistas de todo o tipo onde se pode ler nas entrelinhas a sua experiência como sobrevivente de uma gestação multipla. Só alguns nomes: Ian Curtis dos Joy Division, Robby Williams, Leonard Coen, Elvis Presley (o seu irmão morreu à nascença, ver aqui), e o grande poeta português Fernando Pessoa também tem todas as características...

Os vossos comentários são bem-vindos, podem mesmo dar a conhecer outros nomes que vos pareçam fazer parte desta lista.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Falar com os bebés

Um exemplo de como o tratamento precoce em gémeos sobreviventes pode salvar vidas, e prevenir distúrbios psico-somáticos:
Myriam Szejer, pedopsiquiatra, pratica há mais de dez anos junto de mães e bebés um tipo de terapia chamada de escuta pós-parto. É um tratamento através da palavra, indicado para prevenir ou curar doenças e alguns distúrbios somáticos ou funcionais dos recém-nascidos. Diz a pedopsiquiatra que “É importante falar com a criança de uma maneira geral porque se trata de um ser humano, envolvido pela linguagem e portanto ávido dessas palavras que o constroem, mesmo a nível inconsciente. Às vezes há verdades fundamentais que dizem respeito à sua história e que se torna essencial dizer-lhe o mais cedo possível, para evitar que ela sofra por causa delas. Essas palavras permitem à criança organizar suas percepções e dar-lhes um sentido.”
No seu livro Palavras para Nascer, Myriam Szejer relata o caso de uma gravidez gemelar em que havia uma malformação muito grave numa das gémeas. Segundo prognósticos médicos depois de nascer ela teria um curto período de sobrevivência. A interrupção in-útero da vida desse feto foi feita já tadriamente, tendo o feto morto permanecido no útero até ao nascimento por cesariana da irmã sobrevivente, que se deu 15 dias depois. Tal como previra a Dra. Szejer, a gémea sobrevivente, de nome Léa, teve sérios problemas logo após o nascimento: não se alimentava e quando era amamentada à força, regurgitava imediatamente, colocando em risco a sua própria vida.
O problema foi tratado num trabalho muito intenso, com muitas conversas com Léa. Como explica a pedopsiquiatra "No caso da morte de um irmão gêmeo durante a gravidez, é preciso explicar ao que sobreviveu que ele poderá guardar no coração a lembrança de seu irmão ou da sua irmã, mas que ele não o verá mais."
Em duas semanas a recém-nascida conseguiu assimilar a situação da falta da sua gémea, a sua própria situação de sobrevivente, e a dificuldade em se alimentar desapareceu. Ao ser ajudada a fazer o luto da irmã ela pode recuperar do choque que viveu ainda antes de nascer.

terça-feira, 8 de julho de 2008

A silent Cry

A Conferência em Londres foi simultaneamente o lançamento do novo livro de Althea Hayton, A silent Cry, que reúne 70 testemunhos de gémeos sobreviventes. São pessoas originárias dos quatro cantos do mundo que tendo contactado a Althea via e-mail, aceitaram publicar neste livro, sob anonimato, as suas histórias pessoais. Para elas a publicação dos testemunhos resulta como uma atitude profundamente terapêutica, e para os leitores este será um material eventualmente esclarecedor, e com certeza fascinante. São pequenos depoimentos que relatam histórias de revelação, descoberta e cura.

A primeira parte apresenta algumas das muitas formas como um gémeo pode perder-se antes de nascer, e como alguns indícios do gémeo desaparecido podem ainda ser visíveis.
A segunda parte expõe as diferentes e muitas maneiras com que a perca pré-natal de um irmão gémeo pode influenciar atitudes, sentimentos e comportamentos.
E a terceira parte consiste em algumas histórias mais compridas que relatam o processo de cura experimentado por alguns indivíduos.

“Chegou o momento de contar ao mundo uma das maiores e mais bem guardadas histórias do nosso tempo: Os profundos efeitos psicológicos que os gémeos sobreviventes experimentam quando o seu irmão gémeo morre antes de nascer.” Althea Hayton