Womb Twin - Portugal

Gémeos singulares são pessoas que partilharam parte da sua vida intra-uterina (na maioria das vezes apenas umas semanas) com um ou mais irmãos ou irmãs gémeos idênticos ou fraternos que não chegaram a nascer. O segredo mais bem guardado até hoje é que o pequeno embrião já tem consciência, já guarda memória.

HAVERÁ PESSOAS GÉMEAS NASCIDAS SINGULARES QUE SOFREM TODA A SUA VIDA, COMO CONSEQUÊNCIA DESSA PERDA DO SEU COMPANHEIRO INICIAL?

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Esta é uma história de amor...

Uma canção de Adriana Partipim (animada por um fan, imagino) que, lida do nosso ponto de vista, dá uma ideia do sentimento de saudade e falta que gémeos sobreviventes muitas vezes experimentam. Ora vejam:

Há muitos mais cantores, poetas, e artistas de todo o tipo onde se pode ler nas entrelinhas a sua experiência como sobrevivente de uma gestação multipla. Só alguns nomes: Ian Curtis dos Joy Division, Robby Williams, Leonard Coen, Elvis Presley (o seu irmão morreu à nascença, ver aqui), e o grande poeta português Fernando Pessoa também tem todas as características...

Os vossos comentários são bem-vindos, podem mesmo dar a conhecer outros nomes que vos pareçam fazer parte desta lista.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Falar com os bebés

Um exemplo de como o tratamento precoce em gémeos sobreviventes pode salvar vidas, e prevenir distúrbios psico-somáticos:
Myriam Szejer, pedopsiquiatra, pratica há mais de dez anos junto de mães e bebés um tipo de terapia chamada de escuta pós-parto. É um tratamento através da palavra, indicado para prevenir ou curar doenças e alguns distúrbios somáticos ou funcionais dos recém-nascidos. Diz a pedopsiquiatra que “É importante falar com a criança de uma maneira geral porque se trata de um ser humano, envolvido pela linguagem e portanto ávido dessas palavras que o constroem, mesmo a nível inconsciente. Às vezes há verdades fundamentais que dizem respeito à sua história e que se torna essencial dizer-lhe o mais cedo possível, para evitar que ela sofra por causa delas. Essas palavras permitem à criança organizar suas percepções e dar-lhes um sentido.”
No seu livro Palavras para Nascer, Myriam Szejer relata o caso de uma gravidez gemelar em que havia uma malformação muito grave numa das gémeas. Segundo prognósticos médicos depois de nascer ela teria um curto período de sobrevivência. A interrupção in-útero da vida desse feto foi feita já tadriamente, tendo o feto morto permanecido no útero até ao nascimento por cesariana da irmã sobrevivente, que se deu 15 dias depois. Tal como previra a Dra. Szejer, a gémea sobrevivente, de nome Léa, teve sérios problemas logo após o nascimento: não se alimentava e quando era amamentada à força, regurgitava imediatamente, colocando em risco a sua própria vida.
O problema foi tratado num trabalho muito intenso, com muitas conversas com Léa. Como explica a pedopsiquiatra "No caso da morte de um irmão gêmeo durante a gravidez, é preciso explicar ao que sobreviveu que ele poderá guardar no coração a lembrança de seu irmão ou da sua irmã, mas que ele não o verá mais."
Em duas semanas a recém-nascida conseguiu assimilar a situação da falta da sua gémea, a sua própria situação de sobrevivente, e a dificuldade em se alimentar desapareceu. Ao ser ajudada a fazer o luto da irmã ela pode recuperar do choque que viveu ainda antes de nascer.

terça-feira, 8 de julho de 2008

A silent Cry

A Conferência em Londres foi simultaneamente o lançamento do novo livro de Althea Hayton, A silent Cry, que reúne 70 testemunhos de gémeos sobreviventes. São pessoas originárias dos quatro cantos do mundo que tendo contactado a Althea via e-mail, aceitaram publicar neste livro, sob anonimato, as suas histórias pessoais. Para elas a publicação dos testemunhos resulta como uma atitude profundamente terapêutica, e para os leitores este será um material eventualmente esclarecedor, e com certeza fascinante. São pequenos depoimentos que relatam histórias de revelação, descoberta e cura.

A primeira parte apresenta algumas das muitas formas como um gémeo pode perder-se antes de nascer, e como alguns indícios do gémeo desaparecido podem ainda ser visíveis.
A segunda parte expõe as diferentes e muitas maneiras com que a perca pré-natal de um irmão gémeo pode influenciar atitudes, sentimentos e comportamentos.
E a terceira parte consiste em algumas histórias mais compridas que relatam o processo de cura experimentado por alguns indivíduos.

“Chegou o momento de contar ao mundo uma das maiores e mais bem guardadas histórias do nosso tempo: Os profundos efeitos psicológicos que os gémeos sobreviventes experimentam quando o seu irmão gémeo morre antes de nascer.” Althea Hayton

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Notícias da 1ª Conferência

No passado dia 21 de Junho participei em Londres na 1ª Conferência anual da Wombtwin.com, com o tema Da Teoria à Terapia. Tive assim a oportunidade de conhecer pessoalmente quem está à frente desta organização realmente pioneira que investiga e apresenta pública das consequências pisco/emocionais que caracterizam os gémeos sobreviventes de gravidezes gemelares.

Acompanhados por de cerca de 30 participantes de diversas idades e nacionalidades, lá estavam Althea Hayton e Nick Owen, duas pessoas bastante diferentes que se completam no modo como abordam o trabalho acerca de gémeos sobreviventes. Ela com a busca minuciosa da evidência científica e dos dados estatísticos, e ele mais com uma observação do ponto de vista psico-emocional; gente que assume com consistência a sua razão, que se apresenta com uma invejável segurança no futuro e uma alegre tranquilidade no presente.

Althea Hayton falou dos efeitos físicos e psicológicos de ser gémeo sobrevivente de uma gravidez múltipla, apresentando ao seu modo transparente e objectivo um powerpoint, a consultar aqui.

Nick Owen apresentou de um modo mais poético a questão da busca de uma terapêutica adequada para gémeos sobreviventes. Encontrar um terapeuta preparado para trabalhar com sobreviventes de gravidezes gemelares não é fácil, é ir contra a maré, há demasiado conhecimento, demasiados factos que se opõem a essa "hipótese". Como afirma Nick "A Sociedade tem um bloqueio em relação a aceitar as vivências pré-natais, e nós próprios, os gémeos sobreviventes, temos esse bloqueio em nós, lutamos com ele diariamente. Precisamos como terapeuta de alguém muito especial, porque o nosso é um problema muito especial".

Para dar resposta ao trabalho psicoterapeutico no âmbito do trauma pré natal, como é aqui o caso, ficou bem clara nesta conferência a necessidade de uma evolução nas psico-terapias. Segundo John Rowan, o palestrante que falou do papel do gémeo desaparecido na psicoterapia pré e peri-natal, "entrar no pré-natal implica entrar nos níveis subtis do transpessoal, do simbólico, e isso aponta para um trabalho com o uso de rituais e o trabalho com imagens".

Para além dos assunto apresentados pelos especialistas, os temas que vieram à baila nas discussões participadas pelos presentes foram igualmente atraentes. Nesses debates, e também nos intervalos, todos aproveitaram para trocar experiências e vivências pessoais, o que criou um clima de união, como se aquele evento fosse uma festa entre amigos que há muito tempo não se viam. Pode ler aqui (em inglês) alguns comentários dos participantes, registados no final do dia.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ressentimento ou raiva constantes

O Sonho do Ventre é, segundo Althea Hayton, uma impressão vaga e inefável, uma memória perdida, que permanece profundamente implantada na parte mais primitiva do nosso cérebro. Não sendo exactamente um sonho, esta é a palavra mais adequada para descrever o que obviamente está além das palavras.
Psicólogos, embriologistas e terapeutas de várias disciplinas têm vindo a debruçar-se sobre os efeitos da experiência pré-natal na mente do indivíduo sobrevivente. Hoje em dia já é consensual entre os investigadores a crença de que todos nós transportamos uma impressão da nossa vida antes do nascimento.

O aspecto interessante do Sonho do Ventre do gémeo sobrevivente é a necessidade de manter vivo aquele sonho, pois é lá que se encontra o seu irmão perdido. A consequência de ter sobrevivido a essa perda não se resume à solidão e ao abandono. Ressentimento ou raiva, são forças destrutivas que podem igualmente consomir lentamente muitos gémeos singulares.

O ressentimento é aquela sensação que surge na sequência de Grandes Males. A pessoa que vive com uma sensação constante, secreta e inquieta de ressentimento, é obrigada, dia a dia, a direcionar para esse sentimento, um incrível montante de energia.
• podemos ressentir-nos de algum dano no passado ou algo de que fomos vítimas;
• podemos ressentir-nos do facto de que algo é injusto;
• podemos ressentir-nos de alguém que simplesmente não entende como nos sentimos;
• podemos ressentir-nos do mundo ser como é, cheio de dor e sofrimento.
O ressentimento é poderoso porque contém zanga e sofrimento - tem um cunho de auto-preservação; sente-se digno porque há que proteger os direitos de alguém; ou, sente-se absolutamente autêntico porque aquelas sensações são muito verdadeiras.
E se na realidade tivermos mesmo perdido alguma coisa? e se houve uma luta entre a vida e a morte? E se o mais débil realmente faliu? E se a nossa vida veio à custa da vida de alguém outro? E se o que nos retém for a culpa de ter sobrevivido?

Outros passam de uma depressão profunda para uma raiva tal, que atacam tudo e todos sem se preocupar a quem prejudicam. A mensagem é clara; "quero que o mundo sinta a minha dor!"
Esta raiva vem da expressão directa da rejeição pré-natal. Não foi a mãe quem nos rejeitou, foi o irmão gémeo por simplesmente desaparecer. A resposta típica a esta sensação de rejeição e traição é entrar em colapso, desamparo e desespero, enfurecer-se contra o outro e contra a injustiça do mundo, e/ou recusar simplesmente implicar-se na vida.
"A nível emocional, a raiva é uma resposta desolada, solitária e apavorada ao Buraco Negro, onde lhe foi originalmente feita uma promessa de luz e amor. Aquela promessa brilhante da vinculação com o irmão gémeo (a vinculação mais próxima que existe na natureza) não foi cumprida, deixando só escuridão: - um sentido de falta, de perda e de vazio." Althea Hayton
Esta raiva actua de modo alienado mas não é louca. Pode ser entendida. Ela é uma raiva contra a Natureza; contra Deus; contra o modo como as Coisas São. A vida é simplesmente inaceitável - não suportável - sem Outra Metade. Althea diz ainda: "Como Narciso, que viveu até a sua morte na contemplação arrebatada da sua imagem reflectida, ignorando amor e vida, o sobrevivente idêntico parece-se com um zombi, só meio-vivo."

Para o sobrevivente o ressentimento ou a raiva são provavelmente o único modo de exprimir na vida aquelas suas sensações originais. Estes sentimentos parecem incontornáveis mas podemos curá-los. Apenas temos que acordar para realidade, para o calor da nossa vida depois do nascimento: que estamos rodeados do amor, de gente que deseja ser nossa amiga; que ninguém está a tentar prejudicar-nos; que a dor é nossa, não é uma dor que nos está a ser imposta.
Quanto mais tempo levarmos a perdoar, a deixar ir, e a rendermos-nos pacificamente ao modo como as coisas são, mais tempo viveremos em dor e solidão.
"Você está a criar a sua dor e só você pode curá-la, simplesmente desculpando a privação que lhe coube nesta vida." Althea Hayton

Baseado em:
Keeping the dream alive, Constant, secret, seething resentment, The rage of the identical wombtwin survivor

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Tradição africana

Entre os Iorubas, uma das maiores tribos africanas, nasce um grande número de gémeos: um em cada 22 a 24 nascimentos, enquanto a média mundial anda em um por cada 85 nascimentos.
O culto dos gémeos dos Iorubas dita que a alma dos gémeos é indivisível. Assim, se uma das crianças morre, eles criam um substituto para o gémeo sobrevivente. Um carpinteiro é incumbido de fazer uma pequena figura de madeira que vai servir de lar à alma da criança falecida. A figura de madeira do gémeo -ibeji- é vestida, enfeitada com jóias, lavada e untada com óleos, e é tratada do mesmo modo que a criança viva, sendo mesmo colocada ao peito.
Quando mais crescida a criança passa a carregar a sua "outra metade" ao pescoço ou à cintura.

Da nossa perspectiva esta tradição, para além de integrar a criança falecida na família, ajuda o gémeo sobrevivente a reconhecer a sua perca, com os benefícios que daí advêm - reconciliar-se com a sua dor, e fazer um luto com consciência.

Ver mais informação relacionada com os rituais africanos aqui.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Bebés gémeos sobreviventes

Gémeos sobreviventes partilharam a sua vida intra-uterina com um ou mais irmãos gémeos, o que significa que a gravidez começou com dois, ou mais, bebés e terminou apenas com um. O irmão gémeo pode ter morrido em qualquer etapa da gravidez até ao momento do nascimento, incluindo aqui o chamado síndrome do gémeo desaparecido, amplamente observado e estudado pela medicina.

A perda de um gémeo, como qualquer outro acontecimento marcante (seja positivo ou negativo) durante a gestação, terá um efeito potencial no desenvolvimento da personalidade desse indivíduo. A psicologia pré-natal está hoje bem estabelecida e já podemos afirmar com certeza que a nossa vida no ventre tem muita influência na formação da nossa personalidade. Os gémeos sobreviventes são um caso especialmente interessante nesta matéria.

Muitos meios-gémeos manifestam nas suas vidas, e nomeadamente na adolescência, ansiedades e outros indícios resultantes da vivência de morte por que passaram mesmo antes de nascer. Mas também há casos de gémeos sobreviventes que não apresentam na sua vida futura nenhum tipo de angústias profundas. A pergunta é, a que se deverá essa diferença.

A qualidade do vínculo que a mãe estabelece com o seu bebé durante a gravidez, logo depois do nascimento e nos primeiros meses, tem uma importância crucial para que sejam reduzidas as consequências emocionais negativas nomeadamente as que os gémeos sobreviventes enfrentam. Para estas crianças um vínculo de qualidade com a mãe poderá ajudar a curar precocemente a ferida que eles trazem da sua vida intra-uterina. Se a dor e o luto forem partilhados com a mãe desde o primeiro minuto, se ela acolher os lamentos do bebé e lhe poder oferecer o apoio que ele necessita, é provável que ele venha a ter mais facilidade em superar essa perca.

Com um contacto corporal muito próximo, e uma disponibilidade e entrega emocional da mãe para estar e cuidar do seu filho nos primeiros meses, ele terá a oportunidade de se ir libertando da sua condição gemelar inicial, tomando consciência do seu próprio ser individual e único. Este é o “método” usado entre povos naturais para cuidar dos seus filhos, eles sabem que para um bebé crescer emocionalmente saudável ele precisa de um cuidado atento, próximo e permanente nos primeiros tempos de vida.

O toque é uma necessidade básica de qualquer recém-nascido, ajuda-o a reconhecer o seu envelope corporal e a construir assim a sua identidade própria. No caso do nosso bebé sobrevivente de uma gravidez gemelar, o toque é especialmente importante para que ele possa crescer assumindo-se como uma só pessoa inteira. Porque esta é a dor dos gémeos sobreviventes – o facto de lhe faltar uma parte (o seu irmão gémeo) - de quem eles pensavam que eram.

Naquela fase precoce do seu desenvolvimento, em que se deu a tragédia, o indivíduo ainda não conseguia diferenciar claramente entre quem ele era, e quem era aquela criaturazinha que crescia a seu lado. Existe nele a tendência para a confusão de identidades. Com a ajuda de uma mãe informada, que está lá, que o recebe e lhe dá um apoio seguro, ele terá os fundamentos para ultrapassar com sucesso essa dificuldade.