Womb Twin - Portugal

Gémeos singulares são pessoas que partilharam parte da sua vida intra-uterina (na maioria das vezes apenas umas semanas) com um ou mais irmãos ou irmãs gémeos idênticos ou fraternos que não chegaram a nascer. O segredo mais bem guardado até hoje é que o pequeno embrião já tem consciência, já guarda memória.

HAVERÁ PESSOAS GÉMEAS NASCIDAS SINGULARES QUE SOFREM TODA A SUA VIDA, COMO CONSEQUÊNCIA DESSA PERDA DO SEU COMPANHEIRO INICIAL?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Wombtwin Open Space Conference 2009

Decorreu no passado fim-de-semana, dias 30 de Outubro a 1 de Novembro nos arredores de Londres a primeira conferência "open space" da associação Wombtwin.com.


Foi uma oportunidade de encontro e troca de ideias acerca do que sentem e como se ajudam gémeos sobreviventes, das suas características, especificidades e angústias, de que disfrutou um pequeno grupo de pessoas oriundas de países como os Estados Unidos da América, Brasil, Suíça, Irlanda e eu própria de Portugal além de alguns ingleses.

Esta foi a segunda vez que a Wombtwin.com organizou um encontro deste tipo. A proposta de um encontro do tipo "Open Space" resultou da experiência da 1ª Conferência anual da Wombtwin.com do ano passado, a 21 de Junho, em que os participantes sentiram falta de tempo para se conhecerem mais a fundo.

Althea Hayton apresentou slides sobre a descrição biológica da gemelaridade e ainda apresentou informação recentemente recebida sobre o resultado do relatório da análise dos seus 500 questionários realizada por uma universidade de Londres (brevemente darei informações pormenorizadas desses resultados).
No segundo dia houve lugar para conversas informais em grupos restritos, conforme inscrição prévia dos participantes, sobre temas como sexualidade, crianças gémeas sobreviventes, o síndrome de acumular objectos, problemas de alimentação, entre outros.

Estas conversas decorreram num ambiente descontraído onde os participantes tiveram oportunidade de conhecer-se melhor e de partilhar com os outros presentes as suas experiências próprias, as suas dúvidas e as suas ansiedades.

No último dia Althea Hayton propôs um trabalho prático; uma oportunidade de em grupo cada uma das pessoas trabalhar a sua questão individual:
Os participantes foram convidados a fazer simbolicamente o seu percurso em direcção à cura e a libertação do sofrimento específico que cada um escolheu para tratar. Assim, caminhando sobre um corredor que partia do "buraco negro" e levava à realização pessoal e à luz passando por diversos obstáculos, cada pessoa pode simular o seu "caminho de cura". Na companhia do/s colega/s mais próximo/s ou sózinha fazia desaparecer simbolicamente um balão com os sentimentos que lhe pesavam, cobria-se da energia de sobrevivente (alfa) e anunciava ao grupo a sua intensão de crescimento futuro.

Este trabalho, sempre emocionado e profundo serviu de despedida do grupo, que voltará a ter a oportunidade de se encontrar no próximo ano.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Carl - sobrevivente de tentativa de aborto

Para quem compreende inglês não posso deixar de colocar aqui a história de "Carl" escrita por ele próprio e lida por Althea Hayton (clique aqui). Carl é o pseudónimo de um homem que entrou em contacto com Althea através do seu questionário (criado para recolher informações acerca do sentir de gémeos sobreviventes, através dele Althea presta ao mesmo tempo ajuda às pessoas que a pedem para encontrarem o seu caminho individual de cura). Este homem sobreviveu à tentativa de aborto que a sua mãe se viu obrigada a fazer, e que matou o sau irmão gémeo. Neste videoclip Althea dá voz à impressionante descrição do seu percurso de sofrimento de toda a vida.
Carl está neste momento internado no hospital devido a um quadro de depressão. "Eu acredito que depois de ter passado algum tempo no vale sombrio da morte - onde foi executado o aborto -, quando conseguir começar a deixar o "buraco negro" da sua vivência se sobrevivente de aborto, nesse momento ele terá iniciado o seu caminho de cura" afirma Althea Hayton.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Gémea para todo o sempre

Este relato sincero e comovente ilustra o texto de 20 de Setembro da Drª Nancy Greenfield: como sente uma jovem que perde a sua irmã gémea!

Gémeas :( Tenho tantas saudades tuas. Como nos foi acontecer uma coisa destas? Porque nós somos gémeas e devíamos estar juntas. Passamos toda a vida juntas, e agora? Não aguento estar sem ti, pensava que sim, mas não. És a minha segunda metade, a minha gémea. Nunca deixamos que nada se metesse entre nós, sempre estivemos unidas. E agora? Agora já não estás comigo. Tu sabes que eu preciso de alguém que tome conta de mim e me diga como continuar. Eu preciso de ti, fazes-me falta. Sinto falta de falar contigo sobre tudo e nada. Sinto falta de quando vinhas para a minha cama nas noites de trovoada. Sinto falta de estar dia e noite contigo. Sinto falta de quando te zangas e te atiras a mim; quem diria! E dos miminhos, já não tenho ninguém em quem me enroscar e fazer festinhas. Já no jardim de infância fazíamos das nossas. Estávamos sempre juntas! Mesmo não sendo nós sempre uma só alma e um só coração, depois de cada briga voltávamos sempre a fazer as pazes. Tenho saudades tuas e quero voltar a brigar contigo. Quero que voltes a ficar furiosa e te atires a mim de novo. Que volte a ser tudo como era dantes, e que voltemos a estar juntas. Quando se passava alguma coisa comigo, tu estavas sempre do meu lado. Desde que desapareceste é tudo diferente. Quero que me voltes a dar miminhos. Como é que nos puderam fazer uma coisa destas? Eu não aguento a tristeza de estar entregue a mim própria. Porque eu gosto tanto de ti. Gostava tanto de voltar a estar contigo. Sinto a tua falta. Um beijo da tua gémea.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Grito II: Olá Zé Ninguém

Gostava de sentir

o que tu sentiste

quando morreste e não saiste.


Gritavas no escuro

e ninguem te ouvia

era a vida que tinhas que te fujia.


O calor tornou-se frio

assim fiquei eu

com um pouco de morte sombrio

sem saber o que te aconteceu.

Um beijinho do teu irmão gémeo Manuel.

No dia do meu aniversário e da tua morte.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Grito I: Aos meus irmãos queridos

Abrimos deste modo neste blog o espaço - Gritos, para comunicar ao mundo as mensagens que quiserem sobre os gémeos desaparecidos; escrevam-me para wombtwin.pt@hotmail.com.
-------------------------------------------------

Reconheço, e peço o merecido reconhecimento para os meus irmãos gémeos com quem partilhei o início da minha vida no útero, e a quem dei o nome de Jacinto e Sebastião.

Eram muito pequeninos, o seu corpinho ainda mal estava formado quando o seu caminho levou outro rumo senão o de nascer na minha companhia.
Mas estão inteiros no meu coração. A sua breve presença ainda hoje recordo emocionada.
- Jacinto, recordo-te com imensa saudade, e consideração.
- Sebastião, fica com os anjos, tens um lugar muito especial no meu coração.
Anónima
(imagem de Jean Broc, a morte de Jacinto, da mitologia grega)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A obra de Joanna Wilheim

No passado mês de Julho a Drª Joanna Wilheim, uma das pioneiras no estudo de gémeos sobreviventes (desde 1983) e Presidente da Associação Brasileira para o Estudo do Psiquismo Pré- e Peri-Natal, deu em Paris uma palestra com o título “Sindrome do Sobrevivente de Concepção Gemelar” no 1º Seminário internacional Transdisciplinar Clínica Pesquisa sobre o Bebé, do Instituto Langage.

Já em 2005 tinha apresentado as suas pesquisas e conclusões à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo onde, a partir sua da experiência clínica de vinte e cinco anos, e de todo o seu trabalho de investigação, realçava “a vastidão e extrema importância das repercussões psíquicas das experiências traumáticas pré-natais.”

As premissas básicas desta sua investigação são para mim, que trabalho em terapia psico-corporal com bebés, muito valiosas e determinantes. Joanna Wilheim enuncia-as resumidamente deste modo:

- Todo o processo de concepção biológica, desde a formação das nossas duas células germinativas básicas – espermatozóide e óvulo –, é registado numa proto-mente através de uma memória celular.

- Tais inscrições produzem uma matriz básica inconsciente que fornece a matéria-prima para a produção das nossas fantasias inconscientes.

Assim, as fantasias são memórias.

- Existe uma relação efectiva, absolutamente arcaica e primordial entre o nosso soma e a nossa psique.

- Há um trauma na altura da concepção.

Joanna Wilheim enfatiza a importância do reconhecimento dos vestígios deixados na mente pelos acontecimentos traumáticos pré-natais, para uma satisfatória condução do processo terapêutico analítico, e chama a atenção para a necessidade de a psicanálise voltar a sua atenção para a síndrome do sobrevivente de concepções gemelares, considerando que esta estaria na raiz de muitas psicopatologias.

Para saber mais sobre a obra de Joanna Wilheim leia os seus livros (clique nas imagens para conhcê-los), ou um texto seu em Artigos relacionados.

domingo, 20 de setembro de 2009

Nancy Greenfield explica

Como me são sempre colocadas questões quanto à possibilidade de esta hipótese que apresento aqui ser especulativa, uma mera divagação de algumas pessoas que resolveram acreditar em histórias cheias de imaginação (que no lugar de fantásticas fadas e duendes colocaram adoráveis gémeos, trigémeos e outros múltiplos) recolhi afirmações de uma pessoa idónea que investiga e trabalha há anos com esta matéria. Pedi à psiquiatra e neurologista Drª Nancy Greenfield, de Maiami FL, que fizesse um comentário que achasse mais pertinente para nós, e aqui está a sua explicação clara e concisa:

“Com base na minha pesquisa e na investigação actual da psicologia tradicional, posso afirmar que o relacionamento entre gémeos é o mais íntimo de todos os relacionamentos humanos. Consequentemente, a experiência de perder um irmão gémeo em qualquer momento ao longo da vida pode ser a mais dolorosa das perdas de relacionamento humano. Costumava-se pensar que a perda de um filho era para uma mãe (pai) a forma mais sofrida de perda. Hoje considera-se que a perda de irmãos gémeos tem condições para ser mais dolorosa. Isso acontece porque a relação entre gémeos é mais próxima, mais íntima e mais entrelaçada (física-, emocional-, psicológica- e espiritualmente) que a relação entre a mãe e seu filho.

É importante dizer que, devido à ligação profunda entre gémeos, a perda de um irmão gémeo, independentemente da idade em que ocorra, pode deixar no sobrevivente marcas para toda a vida. Essas marcas variam e podem afectar a forma como o gémeo sobrevivente se sente a si próprio: inclui questões de auto-estima; o sentimento de que a vida é um caminho seguro ou inseguro; como sente os relacionamentos, se acredita na possibilidade de serem estáveis ou não; assim como outras crenças, expectativas e percepções sobre a sua experiência de vida. Pode haver uma sensação de falta de alguém que devia acompanhar o gémeo sobrevivente ao longo da sua vida, bem como uma sensação de incompletude e profunda solidão. Podem persistir ainda sentimentos de perda não identificada, tristeza, culpa, saudade ou confusão, etc.

Dada esta explicação sobre a profundidade e a intimidade gemelar, quero referir que a minha área de trabalho, conhecida como "psicologia pré- e perinatal" (PPN), acredita que desde a concepção há consciência presente no novo ser.

Acredita também que talvez até 70% de nós, que pensamos ser singulares, podemos na realidade ter sido concebidos como gémeos ou múltiplos, tendo um ou mais dos gémeos morrido durante as primeiras semanas da nossa gestação. Isto é conhecido como o "gémeo morto" ou "o síndrome do gémeo desaparecido".

A pesquisa da PPN sugere então que devido à presença de consciência já no útero a relação gemelar embrionária tem o mesmo nível de intimidade que uma relação de gémeos após o nascimento e durante outros períodos da vida. Portanto, uma perda de um dos gémeos durante a fase embrionária e uma perda que ocorra a qualquer momento durante a gestação, pode ser tão devastadora e dolorosa para o embrião/feto ou pré-nascido sobrevivente como uma perda que ocorra a qualquer momento após o nascimento e ao longo da vida."
Nancy Greenfield, Ph.D., R.C.S.T.